A
paisagem é sempre mais fácil. Lida-se melhor com os sobreiros do que com os
homens, com as coisas do que com as pessoas. No entanto, trazemos conosco a
necessidade vital de comunicar, e só o podemos fazer com quem é semelhante a
nós.
Precisamos
disso para nos localizarmos, para sabermos quem somos, para chegarmos a onde devemos
chegar.
Podemos
usar um objeto e deixá-lo fora quando já não convém, mas a relação verdadeira
entre pessoas exige criar laços, mais ou menos profundos, e, depois,
respeitá-los. Talvez uma das causas de o mundo estar tão triste seja que
tentamos lidar com pessoas como com as coisas. Talvez isto tenha contribuído
para que andemos tão perdidos, tão sem saber onde estamos. Usando as pessoas e,
depois, talvez desiludidos, desfazendo-nos delas, começamos por perder o calor
e a luz da amizade – que praticamente desapareceu da face da Terra. E, agora,
estamos a perder a família.
Numa
época em que uma noção errada da liberdade, muito divulgada, leva a não
contrair vínculos e a quebrar com facilidade os vínculos contraídos, é oportuno
recordar que a liberdade é, na sua forma maior, liberdade de nos amarrarmos. É
nesse o significado de “criar laços”. Nestas terras, quando há casamento diz-se
que aquele homem e aquela mulher vão “dar o nó”. Não perdem a liberdade:
exercem-na da forma mais excelente, prendendo-se um ao outro definitivamente de
livre vontade.
Não
devemos ter pena do que “perdemos” quando escolhemos, pois isso faz parte da
natureza da liberdade. Cada vez que escolhemos algo, sacrificamos as outras
possibilidades. No fundo, sermos livres quer dizer que temos alguma autonomia
para escolhermos de que forma vamos renunciar passar a vida fazendo aquilo que
nos apeteça.
É
através do compromisso – uma opção sem retorno que em alguns casos existe sem
que tenha ficado escrita num documento – que nos ligamos ao amigo, ao esposo à
esposa, a uma tarefa em conjunto com outras pessoas... E ligando-nos aos outros
localizamo-nos. Se tens filhos, tens uma tarefa e, com ela, um lugar no mundo.
E todos os teus passos estão cheio de sentido. Fugindo de te amarrares, poderá
chegar o momento em que perguntes a ti mesmo o que estás aqui a fazer.
A
liberdade é a grandeza de poder fazer escolhas. Mas, se essas escolhas não
tivessem conseqüências, se nos permitíssemos voltar atrás em assuntos cuja
natureza não admite isso, a nossa liberdade ficaria esvaziada. E estaríamos a
anular a nossa personalidade, porque nós somos aquilo que fazemos com as nossas
escolhas. É com elas que traçamos o nosso caminho e nos definimos.
É
errado pensar que a vida é um jogo e que, se algo correr não exatamente de
acordo com as nossas expectativas, podemos jogá-lo de novo desde o inicio, com
novas oportunidades de êxito. Seria uma tolice considerar que temos direito a
um caminho de triunfos, sem sofrimentos nem desilusões, sem coragem nem
heroísmo. Porque isso não sucede a ninguém e não é deste mundo. Aqui é preciso
escolher e, depois, seguir em frente até o fim. Por vezes com os ombros pesados
de cansaço, de dor, de desilusão, de fracasso...
Aceitarmos
as conseqüências das nossas escolhas, carregarmos com o peso delas, honrarmos a
nossa palavra, tem o nome de responsabilidade. E só ela confere realidade à
liberdade. Só a mulher responsável é autenticamente livre. A outra... joga; é
ainda criança. Imatura, pouco mulher.
