
A cada passo que alterna os pés na rosa dos ventos, mais pulsa o ar que nos interpõe. O lodo escorregadio no chão da velha casa que criamos, cresce à medida que o silêncio continua a ser a cor das paredes...
Do mesmo ninho, desgarramos e desbravamos vozes, linguagens, ritmos, dissabores, imagens e água, muita água.
E posso vê-la empoçar no latão velho perdido nos entulhos que esquecemos de arrumar.
E quisemos esquecer.
Quisemos deixar.
Hoje renascemos de tantas cinzas quanto o coração humano consegue suportar. Fomos ombro um do outro, num amor dos mais confusos e estranhos que já pude tocar.
E sim, endurecemos.
Com medo do escuro, nos escondemos em crostas de indiferença, em venenosas e ferinas palavras, em tão frágeis berros que tocaram com fogo o claustro fundo da dor.
Do monte alto de tantas aflições fizemos parceria na guerra e dividimos sorrisos, com tão esfarrapadas desculpas para ficar perto um do outro.
Mas o hoje é tempo de adeus.
Tempo de ir.
Tempo que não se conta e mal se dá conta.
Quando vi, éramos outros, intercalados pelo vão das palavras não ditas; dos cômodos que não se visitam.
E só estamos...
Antes mesmo de partir, estranhos.
E só eu sei o quão alto me custa a dor de ainda dividir a geografia e não dividir o coração.
De termos tamanha contiguidade territorial e tantos limites perigosos, pactos de fria paz.
Há tanto que queria dizer.
Quão é almejado o espaço pra te mostrar o que aprendi não há como dizer, apenas deixar as chuva molhar o rosto.
E ver-te em vista trêmula com os olhos vermelhos, com o punhal no peito e o sorriso no rosto.
É, em mim, um zumbido agudo e ininterrupto esse impropério.
Não passa e me acompanha apitando entre os carros, as pessoas falando, a vida “levando”.
Nunca quis, nem quero, roubar tua casa, teus brinquedos e teus princípios.
Não quero arrolar sobre teus olhos os meus olhos, os meus pontos, o meu tempo.
O tempo é só o agora e ele passa deixando um vão abissal entre nós.
Eu vou e deixo-te com os pretos velhos e as armas de Jorge; com sua capa vermelha e flamejante na luta com teus dragões.
Os meus quedaram moinhos de vento, pra descobrir outra medida que não a fatalidade profetizada, e eles me aguardam fora daqui.
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