domingo, 27 de junho de 2010

Inútil



“O passado é inútil como um trapo”.
Ele passou pela tua rua e a memória daqueles tempos doces de cheiro a amoras selvagens brilhou-lhe no coraçao durante uma fração de tempo.
Mas depois até essa memória da memória lhe desaparece da mente.
E a memória é objetiva, é fria.
Não sente nada para além de uma sensação de familiaridade, que é sempre uma sensação suavemente calorosa.
Não sente para além daquele arrepio de Déjá Vù porque já apanhou este trem antes, já saiu nesta mesma paragem antes, contigo a salvo no peito.
Mas é inútil.
Porque é o mesmo eu dele.
É o mesmo trem.
É a mesma rotina, o mesmo quotidiano.
É a mesma cidade, permaneceu imóvel a esse romance falhado.
Um romance falhado serve unicamente para uma espécie de aviso de não repetição. Uma cicatriz no coração.
Um romance falhado é uma marca sensorial e só serve para isso, para se dizer que se viveu de alguma forma, de alguma maneira.
Amor não existe sem um certo conceito de aleatoridade.
Foi tudo inútil, agora nada existe.
Até o final foi inutil.
Gastaste-o e ele renasceu e já não sabe quem és.
Recorda-te como se recorda de uma equação brilhante matemática ou de monumento magnificiente que o fascinou.
Recorda-te sem se lembrar de quem és.
“O passado é inútil como um trapo”.
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